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Pensamento do dia: “Matar o tempo não é assassinato. É suicídio!” (Rabino Ezriel Tauber)

segunda-feira, 18 de março de 2013

Em matéria de impunidade criminal, realmente não existe país como o Brasil

quinta-feira, 14 de março de 2013

Uma impressionante reportagem publicada pelo site Yahoo mostra a que ponto chega a impunidade criminal em nosso país, amparada em lei, e sem que nenhuma autoridade realmente demonstre interesse em modificar a legislação e evitar que essa situação perdure, não apenas nos crimes de colarinho branco, mas até mesmo em homicídios.

Trata-se do caso do professor de matemática Claudemir Nogueira. Em 2010, detalhando todo o ocorrido, ele contou à polícia que, um ano antes, enforcara sua mulher, Mônica El Khouri, usando um fio para assassiná-la friamente em São Paulo, e depois simulou um suicídio.

O relato do crime foi espontâneo e Claudemir fez idênticas confissões à Justiça e a peritos do governo estadual. Mesmo assim, nada lhe aconteceu, muito pelo contrário. Como não foi apanhado em flagrante e ser réu primário, sem  possuir antecedentes e (na avaliação da Justiça) não oferecer riscos à investigação, Nogueira não ficou um dia sequer preso desde que confessou o crime.

RECEBENDO PENSÃO…

O mais incrível é o prêmio que o professor conquistou por ter matado a mulher. Desde então, ele recebe a pensão da esposa, além de seus vencimentos como professor da rede estadual, de R$ 2.509 ao mês, que o assassino continua recebendo, mesmo tendo sido afastado das salas de aula.

A situação causa revolta na família de Mônica, que luta para que ao menos a pensão deixe de ser dada ao professor e passe a ser depositada na conta da mãe da vítima. O primeiro protocolo feito pela família da vítima no Ministério da Previdência Social completou dois anos em 2013 e até hoje não recebeu resposta.

Ah, Brasil!!! Que país é esse, como dizia Francelino Pereira, que dá pensão a quem mata a própria mulher? E a tal Lei Maria da Penha? É do tipo vacina, não pegou?

por Carlos Newton (Tribuna da Imprensa)

Frase do Dia: “Não foi uma fatalidade, foi um assassinato, mesmo sem intenção de matar. Poderia ter acontecido com torcedores de todos os clubes e em todos os estádios, o que não exime o Corinthians de culpa”. (Tostão, médico, comentarista e ex-jogador)

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

NOTA DO BLOG:

A torcida denominada “Gaviões da Fiel” vai apresentar um jovem de 17 anos que, supostamente, teria sido o responsável pelo crime. Há quem diga que se trata de um “laranja”, isto é, alguém que, por ser menor, asssume a culpa e viria a ter uma pena mais branda.

Acontece que, dentre os 12 torcedores que estão presos, dois portavam sinalizadores semelhantes àquele que matou o jovem boliviano.

Tenho para comigo que a polícia e a justiça bolivianas não vão aceitar, passivamente,  a história contada pela direção dos  “Gaviões da Fiel”.

2013 será o ano da novela Kennedy

quarta-feira, 21 de março de 2012

Às 12h30m do dia 22 de novembro de 1963, uma bala estourou a cabeça do presidente dos Estados Unidos, e assim começou a maior novela policial de todos os tempos. Quem foi? Com quem? Por quê?

Quem acha o assunto chato terá um ano penoso. Quem acredita que o crime tem um só autor, o ex-fuzileiro Lee Oswald (foto ao lado), terá o que fazer, porque surgirão novas dúvidas. Quem acredita em conspiração, como 95% dos autores das centenas de livros e de 100% filmes que trataram do tema, vai se divertir.

A última novidade vem de Brian Latell, um ex-analista da Central Intelligence Agency, que publicará no mês que vem “Castro’s Secrets”. Ele já escreveu “Cuba sem Fidel”, já editado no Brasil. Agora, Latell revela que, por volta das nove da manhã do 22 de novembro, o ditador cubano reorientou o sistema de escuta e varredura das emissoras de rádios dos Estados Unidos, mandando que os operadores prestassem atenção ao que vinha do Texas.

Essa história foi contada à CIA por um funcionário que recebeu a ordem e, mais tarde, asilou-se nos Estado Unidos. Ele diz: “Castro sabia. Eles sabiam que Kennedy seria assassinado.” (Para quem gosta de conspiração: a CIA guardou essa informação por muitos anos.)

Latell coloca a hipótese de um troco de Castro no contexto de uma história antiga (e provavelmente verdadeira) na qual um major cubano acionado pela CIA para matar Fidel era um agente duplo. Segundo o livro, em outubro de 1963, ao ter seu visto negado pelo consulado cubano no México, Oswald disse que “mataria Kennedy por isso”: “Fidel sabia da intenção de Oswald e não fez nada para impedi-lo.”

O assassinato de Kennedy foi investigado por uma comissão de alto nível, presidida pelo chefe da Corte Suprema, Earl Warren. Com 888 páginas e 26 volumes de anexos, ela concluiu que Oswald não teve cúmplices. Um lobo solitário. Tudo o que fez na vida deu errado.

Exilou-se na União Soviética, retornou aos Estados Unidos e viveu de biscates. Só teve êxito num projeto improvável: matar o presidente dos Estados Unidos, que passou debaixo de sua janela num carro aberto. Deu três tiros e acertou dois.

Ao longo dos últimos 50 anos, a percentagem de americanos que acredita nela oscilou entre 10% e 20%. Em 2003 a teoria da conspiração arrastava 75% dos entrevistados. As hipóteses são tantas que, numa delas, foram disparados 21 tiros contra Kennedy.

Hoje, o maior defensor do Relatório Warren é o promotor Vincent Bugliosi. Ele atuou em 106 casos, só perdeu um e jamais deixou homicida solto. Com vinte anos de pesquisas, escreveu “Reclaiming History” (“Resgatando a História — O assassinato do presidente John Kennedy”). São 1.612 páginas, mais 954 de notas. O e-book custa 9,61.
Bugliosi sustenta a teoria do lobo solitário rebatendo todas as dúvidas. No ano que vem, apresentará uma minissérie de TV com oito horas de duração.

Passarão mais 50 anos e as teorias conspiratórias continuarão dominando. E não é para menos. Lyndon Johnson, o vice que substituiu Kennedy, não acreditava no Relatório Warren e ia além: “Kennedy queria matar Castro, mas Castro pegou-o primeiro.”

Mais: a CIA nunca contou à Comissão Warren que tivera o projeto de matar Fidel. O ex-diretor da Companhia, Allen Dulles, era o mais influente membro da comissão.

por Elio Gaspari

De volta ao passado: “Como se Criam Pistoleiros” – Publicado originalmente por Zuenir Ventura em 02/12/2003.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A possante Chevrolet D-20 estava entrando na estrada de Xapuri quando o guarda do posto rodoviário nos parou e pediu carona para o sargento que estava a seu lado — um jovem forte, baixo, de tênis e calça jeans. Mal se sentara no banco de trás da cabine dupla, depois de colocar a bolsa de mão e as botas na carroceria, perguntamos se ele morava em Xapuri. A resposta parecia muita coincidência e sorte demais para quem ia àquela cidade saber como andavam as investigações sobre a morte de Chico Mendes (foto abaixo):

— Eu comando a Operação Chico Mendes lá.

Os passageiros — dois jornalistas e o advogado do líder seringueiro assassinado — evitaram se entreolhar, e se apresentaram falsificando a identidade: um era escritor da região e os outros dois, turistas em busca de emoção. Não ocorreu na hora que ambientalistas soaria mais adequado do que turistas.

O sargento não gostava apenas de exibir os músculos numa apertada camisa de meia. Era também um exibido em palavras e gestos. Não precisou ser muito instigado para fazer algumas revelações que certamente não faria se conhecesse de fato a platéia. Mas diante de inofensivos turistas, ele poderia contar tudo o que sabia sobre as investigações. A viagem prometia. Não havia dúvida de que íamos ter um companheiro falante para as nossas prováveis três horas em cima de uma estrada de 180km, dos quais pelo menos uns 50 eram tomados por um lamaçal que só é transposto porque há a presença permanente de um trator retirando os atolados.

Havíamos saído de Rio Branco às 12h45 com o marcador de quilometragem do carro em 33.778. Ricardo Lessa contara no Jornal do Brasil como os repórteres do jornal Rio Branco diziam ter chegado ao local do crime uma hora e meia apenas depois do ocorrido. Se assim fosse, não era um furo jornalístico, era um feito automobilístico, ainda mais que o motor do Gol chegara a seu destino sem esquentar — como observara um soldado da PM. O épico relato do jornal contava a chegada à redação da equipe: “todos satisfeitos por viverem esta corrida contra o relógio em favor da informação”.

Em favor da informação e da Volkswagen. Era a noite de 22 de dezembro de 1988 e a chuva caía como quase já não cai agora nesse fim de inverno/começo de verão aqui. Numa estrada em que poucas, pouquíssimas marcas de carro se aventuram — é pista para D-20, F-1000, jipe Engesa, de preferência a óleo Diesel —, o Gol dos jornalistas voara.

Pilotado pelo editor Júlio César Fialho (foto abaixo, em épocas distintas) e tendo ainda a bordo o repórter Adonias Mato e o fotógrafo Luís dos Santos, o carro enfrentou adversidades inimagináveis, mas nenhuma delas suficiente para diminuir o ímpeto daqueles ícaros.

Para se ter uma idéia, na volta, com o furo na mão — a foto exclusiva e o relato de quem viu primeiro —, as peripécias foram tais que quem quiser reproduzi-las no filme sobre Chico Mendes corre o risco de filmar James Bond. O primeiro azar ocorreu quando o carro estava a uns 30km de Rio Branco: um pneu furou. Pior: o estepe também estava furado. Como não havia posto por perto, a opção era passar o resto da noite na estrada, imaginem, com um furo na mão. Isso nem pensar. Ou fazer o que os imaginosos rapazes fizeram: voar sobre três rodas. Por que não?

Alguém que já tenha tentado isso alguma vez, nem que fosse por poucos metros, sabe o quanto é difícil. Mas não para os três, que estavam preparados para todas as provações, inclusive para a pane elétrica que, em seguida, apagou todos os faróis deixando acesa apenas a lanterna de emergência. Foi assim, iluminada por essa lanterna, mas sobretudo por uma vontade imbatível, que a equipe do Rio Branco voltou à capital do império de Galvez pouco mais de três horas depois de ter saído para trazer um dos maiores furos do ano.

O sargento não conhecia a história, mas, acostumado àquele percurso, não acreditava nela. De qualquer maneira, o marcador de quilometragem da nossa D-20 e o relógio é que dariam a palavra final. Enquanto isso, o sargento não ia parar de falar.

A maior dificuldade que ele e seus homens tinham para perseguir os fugitivos — Alvarino, irmão de Darly (foto ao lado), e o filho deste, Oloci, suspeitos de participação no assassinato de Chico Mendes — era a falta de recursos. Há pouco tempo, só para dar alguns exemplos, o comandante da PM de Xapuri solicitara à capital a remessa de 200 cartuchos. Recebera 70. Além disso, estavam comendo só sardinha e arroz e dormindo por turnos: como havia apenas dez colchões para 20 soldados, eles eram obrigados a um desconfortável revezamento de sono.

Para as diligências, o delegado que dirige o inquérito tem à sua disposição o pelotão sob o comando do sargento: onze homens. Mas para deslocar esses soldados, seriam precisos no mínimo uma voadeira e um Engesa: a primeira para diminuir as distâncias fluviais que, em canoas, são medidas em dias ou até semanas; a segunda, para enfrentar estradas intransponíveis de outro jeito. O sargento não agüentava mais de impaciência para entrar na selva. Ele e seus homens conheciam bem a mata, são corajosos e, em breve, ele tinha certeza, pegariam os fugitivos — desde que o governo ajudasse.

Para quem não é do Acre, o nome do sargento não significava nada. Quase no meio do caminho, ele declarou que se chamava Honorato, Honorato Neto. Mas preferia que o chamassem pelo nome de guerra: H. Neto. Não confessava, mas era evidente que não sentia o menor orgulho por esse Honorato, embora o nome, pelo visto, perseguisse três gerações da família. Agá Neto tinha razão: Honoratuneto era um cacófato, não era nome para um guerreiro da selva, intrépido nos seus 26 anos.

Como H. Neto, Honorato tornara-se famoso e chegara a freqüentar as páginas policiais, acusado de comandar o Esquadrão da Morte em Rio Branco. O que os jornais noticiaram na época, o sargento confirmou dentro daquele carro para ouvintes que ele julgava inofensivos. Há tempos, a Polícia Militar tentara prender Piaba, perigoso bandido que intranqüilizava a cidade. Piaba foi cercado, matou um PM, levou vários tiros, mas não morreu. Quando estava deitado na mesa de cirurgia do hospital, com uma equipe de médicos em volta, o pelotão de H. Neto invadiu a sala e despejou sobre o paciente uma quantidade de tiros suficiente para matar uma quadrilha.

Só eu dei 12 tiros — vangloriou-se o nosso companheiro de viagem.

Como nenhum dos passageiros do carro jamais ouvira alguém confessar a autoria de 12 disparos sobre uma pessoa — ou mesmo sobre várias —, ficaram todos com cara de espanto e medo. Estimulado pela perplexidade dos ouvintes que ele com certeza confundiu com admiração, H. Neto entusiasmou-se e contou outros feitos menores. Depois parou e teve o seu único momento de fraqueza:

— Eu só tenho uma frustração: não ter participado da guerra do Vietnã e da guerrilha do Araguaia.

Como se vê, a exemplo de tantos valentes, H. Neto tinha seus devaneios. Só que, por um provável desvio de libido, a fantasia do nosso Honorato, cuja mulher estava para lhe dar um filho, era também de natureza bélica.

A chegada a Xapuri às 15h, duas horas e quinze minutos depois de termos saído de Rio Branco, numa tarde sem chuva e com o carro desenvolvendo no asfalto até 120km, provava que os rapazes do Rio Branco tinham conseguido um milagre que valia a pena ser averiguado pela polícia — mas até aquele momento, quase quatro meses depois, não fora. Merecia porque, se verdadeira a história, ela deveria dar a seus autores senão um Prêmio Esso, pelo menos um prêmio Ayrton Senna. Se falsa, havia uma hipótese a ser investigada. Alguém bem informado poderia ter avisado aos repórteres do jornal do advogado João Branco de que o crime mais anunciado do ano seria finalmente naquele dia.

— Quando eu vi aquele cara dizendo que era Federal e aquele carro sem sinal de lama, achei suspeito. Não podia estar vindo de Rio Branco de jeito nenhum — nos confessaria em outra viagem a Xapuri o soldado da PM Teles, 29 anos. “Coloquei a mão no capô do Gol, ele estava frio, frio. Aí eu disse: ‘Esses caras são suspeitos’.”

— A polícia não o procurou para ouvi-lo?

— Não, ninguém.

Pouco antes de chegar, tivéramos o cuidado de revelar ao sargento dos 12 tiros a nossa verdadeira identidade. Desnecessário. H. Neto não dá o braço a torcer: “Eu já sabia”.

Quando finalmente fomos deixar o nosso Rambo no quartel da PM que fica na mesma praça onde são vizinhos o Sindicato dos Trabalhadores Rurais, a Igreja e a estação rodoviária, havia duas pessoas sentadas na porta de entrada, uma de cada lado. Numa cadeira, um soldado da PM e na outra um quase adolescente de cabelos oxigenados.

O advogado Genésio Natividade, nosso companheiro de viagem, informou que o menino sentado constituía-se na testemunha-chave do processo Chico Mendes e, ainda por cima, era seu xará. Chamava-se Genésio Ferreira da Silva. Nos pareceu que eram Genésios demais numa mesma história, mas, enfim, isso não era problema nosso e sim do diretor do filme. Se ele resolver manter os nomes reais, vai dar ao mundo uma falsa imagem do país — a de que no Brasil, para cada Chico, há dois Genésios, o que não é verdade nem no Acre.

Genésio, 14 anos, dos quais sete vivendo na fazenda do maior inimigo de Chico Mendes, o pistoleiro Darly Alves da Silva, é, depois do próprio Chico, o personagem mais interessante desse processo.

Dez minutos depois de depositar Rambo no quartel e jogar as malas no hotel, estávamos de volta para entrevistar o garoto Genésio num banco na praça em frente à PM. O advogado, seu xará, contara como, na acareação com os pistoleiros, aquele quase menino enfrentara os dois com acusações contundentes e uma coragem fora do comum.

Genésio não tem nada a ver com o que se convencionou classificar de adolescente no Sul do país, embora para os padrões locais possa ser considerado normal. Fisicamente, ele parece ter menos. É magro, enxuto, nunca jogou bola e conhece brinquedo apenas de nome. De namoro, amor e sexo, por enquanto o que guarda são duas cicatrizes mal curadas na barriga, resultado de um coice que lhe atingiu o apêndice e a bexiga.

Psicologicamente, Genésio é um adulto. Seu olhar é duro e seu riso, tão raro quanto raras são as palavras que ele gasta com usura, só para responder. São respostas secas e seguras. E é inútil tentar pegar contradições, mesmo quando se tem que repetir a gravação por defeito do gravador ou quando se testa as perguntas em momentos distintos.

Por aquisição precoce do sentimento machista que valoriza a coragem física, Genésio mentiu uma vez, ao dizer que não tem medo de represálias.

— Mas nem do Darly, que já matou ou mandou matar tanta gente?

— Não.

No dia seguinte, ao levá-lo para comprar uma calça e uma camisa que substituiriam o short e a camiseta surrados, achamos estranho que ele não quisesse descer do carro para experimentar a roupa. Não dizia porque, mas se negava a sair para escolher o que certamente queria.

De dentro da loja, um homem insistia com o olhar em descobrir quem estava na caminhonete.

Depois, já longe dali, o experimentado motorista informou que a loja era de um parente de Darly. Só então o garoto admitiu a razão da recusa. Sem usar a palavra medo, ele concordou que não tinha descido por causa dos parentes do seu inimigo.

Trabalho maior teríamos para descobrir porque aquela alma aparentemente sem ego, onde a vaidade parecia nunca ter entrado, resolvera oxigenar os cabelos. Não era para ficar bonito nem para imitar algum surfista da televisão — irritou-se com a hipótese. Por que então? Era um ardil do ingênuo e apavorado Genésio. Ele achava que assim ficaria irreconhecível. Na semana seguinte, além da água oxigenada, a cabeça tinha sido quase raspada. Mas aí não foi preciso perguntar por quê.

Dos sete anos até a morte de Chico Mendes, Genésio viveu na Fazenda Paraná, de Darly Alves da Silva, que está preso com o filho Darci. Acordava às 6 horas, ia pastorear o gado, dar sal, roçar e colocar veneno nos carrapichos. Sua mãe eram as quatro mulheres de Darli se odiando (Elpídia, Francisca, Margarete e Natalina), e seus companheiros de todo dia, Darlizinho, de 18 anos, Oloci, de 22, Darci, o Aparecido, de 21, e os mineirinhos (Amadeus, Francisco e Jardeir, ou Antônio) — todos pistoleiros profissionais.

— Quem visitava a fazenda?

— Visitava o João Branco, o Benedito Rosa, o Gaston Mota, o delegado Enock, o Jonas Daguabi e o Aragão.

— O João Branco ia lá muitas vezes?

— Ia.

— Você ouviu alguma conversa sobre o Chico Mendes?

— Ouvi do João Branco com o véio Darly. O véio Darly perguntou que que João Branco achava dele matar o Chico Mendes. Aí o João Branco falou que se for igual às outras mortes que o sr. faz e num dá nada, pode matar que se der rolo e eu puder ajudar, eu ajudo.

— Isso foi quando?

— Foi no mês de novembro.

— Como é que você ouviu essa conversa?

— Eu ouvi eles falando. Tem a área assim, tem uma casinha assim, eu ficava de trás da casinha escutando.

— E esse João Branco foi lá muitas vezes?

— Foi umas cinco vez antes da morte de Chico Mendes.

— Ele ficava lá?

— Num tempo ele foi e ficou uma semana.

— Dormindo lá?

— Dormindo, bebendo uísque.

— Ele levava uísque ou tinha uísque lá?

— Ele levava.

— Você já conhecia ele?

— Eu conheci ele em Brasiléia. Eu fui lá mais o véio Darly com o carro, e aí o véio Darly conversando com ele falou que era amigo dele, que chamava João Branco.

— Como é que eles te tratavam lá?

— Eles me bateram muitas vez pra eu não contar os segredos deles.

— Que segredos você sabia deles?

— Eu sabia da morte do Raimundo Ferreira, que pediu a mão da filha dele em casamento, aí ele não deu. Raimundo Ferreira também brigou com Oloci, aí mataram ele.

— Quem matou?

— O Oloci, o Aparecido e um primo do Oloci, o Rildo.

— Como é que você sabe que eles mataram?

— Porque eu ia passando de cavalo, correndo, eu nem tava vendo eles, mas eles pensaram que eu tava vendo, eles me chamaram. Eu fui lá, vi o homem com a orelha cortada, o nariz e um beiço.

— E o que eles fizeram?

— Eles chegaram em casa e empurraram uma faca na minha barriga pra mim não contar pra ninguém. Eu falei que não ia contar não.

— Quem era o mais violento?

— Era o Darci e os três mineirinhos. Uma vez eu achei uma caveira lá, aí bicaram revólver em cima de mim, meteram faca na minha barriga pra eu não contar. Eles falou que se eu contasse eles iam me matar.

— Era caveira de gente?

— Foi. Tava queimada.

— E a história dos bolivianos?

— Os bolivianos passaram na casa dos mineirinhos, pediram água, falaram obrigado e saíram. Aí os mineirinhos pegaram a bicicleta, passaram por eles, foram na fazenda e falaram com os meninos que iam dois bolivianos estranhos, queriam ver o que eles iam levando. Aí os meninos foram esperar lá na frente, meteram os revólveres neles, reviraram as coisas deles e pegaram maconha.

— De que cor era essa maconha?

— Branca.

— Como é que estava embrulhada?

— Dentro de um saco plástico.

— Quem eram os meninos?

— O Oloci e o Darci.

— Eles é que mataram?

— Foram os dois mineirinhos. Só escutei dois tiros.

— O que eles falavam do Chico Mendes?

— Quando eles começaram a briga deles, o véio Darly falou que ia matar Chico Mendes, porque o Chico Mendes ficava falando dele por trás. Disse que ele não ia ter nem mais um ano de vida. Antes de matar, ele falou que ia pedir a mão de Chico Mendes a cumpadre só pra matar.

— Como é que é?

— Ele ia chamar o Chico Mendes lá pra ser cumpadre, e aí ia matar ele.

— No dia que Chico Mendes morreu, o que eles fizeram?

— Mataram uma vaca. Ele falou que o dia que matassem o Chico Mendes, eles matavam uma vaca. E matou mesmo.

— Você tem medo de ficar aqui?

— Não, num tenho medo não. Mas é que eles judeiam de mim.

— Quem?

— O Zé Elias já veio aqui duas vez, me bateu dizendo que era brincadeira, mas batendo com força. O Toninho e o Iran, na Delegacia, também fazem me bater, me prender.

— O delegado não faz nada?

— Faz nada.

— Você já falou com ele?

— Falei não. Eu queria é falar com o juiz.

— O juiz vem aqui te ver?

— Nunca veio me ver não.

— Como é que você foi parar na fazenda do Darly?

— Minha mãe deu eu pra ele. Ele adulou ela, pediu, aí ela deu.

— Você está feliz?

— Tô não.

— O que precisa pra você ficar feliz?

— Se eu for pra Rio Branco, eu fico. É só eu sair daqui.

— Você quer fazer o que lá?

— Eu queria estudar.

Genésio Ferreira da Silva é um cidadão precoce que o destino tentou pela convivência e o exemplo transformar em pistoleiro. Só o mistério da índole, na falta de outra palavra, pode ter impedido esse menino de seguir a carreira de seus irmãos de criação e do pai adotivo. Mas nem isso nem a condição de testemunha-chave do processo Chico Mendes evitaram o desamparo e a solidão de uma criança que resolveu escolher o atravancado caminho da legalidade numa terra onde ela ainda não pegou. Genésio resiste — resta saber até quando.

Quase um mês depois dessa entrevista, no dia exato em que fazia quatro meses do enterro de Chico Mendes, Genésio foi entregue à guarda do comandante da PM de Rio Branco, coronel Roberto Ferreira da Silva, um estudante de Letras e admirador de Gandhi por quem a cidade tem o maior respeito. Ali, Genésio ingressou na Guarda Mirim e vai estudar. No ofício em que autorizou a transferência, o juiz de Xapuri, Adair Longuini, escreveu:

“A medida se faz necessária em razão de encontrar-se o menor em ambiente não muito recomendado (…), além do que figura dentre as testemunhas do caso Chico Mendes, tendo declarado em seu próprio depoimento que temia uma ação maléfica contra a sua pessoa”.

Inexplicavelmente, de todas as entidades e instituições nacionais ou estrangeiras, religiosas ou laicas, interessadas no caso Chico Mendes, a única a se sensibilizar pelo drama de Genésio Ferreira da Silva foi a Polícia Militar de Rio Branco.

NOTA DO BLOG:

Como informa a coluna do jornalista Claudio Humberto, o lobista Julio Cesar Fróes Fialho, acusado de negócios escusos no Ministério da Agricultura, teve comportamento suspeito quando o ambientalista Chico Mendes foi assassinado, em 1988. Ele se assinava “Júlio Cesar Fialho” e era editor do jornal O Rio Branco, do então deputado Narciso Mendes, ligado a fazendeiros, e chegou ao local do crime quase imediatamente, apesar dos 188km de imensos lamaçais amazônicos entre Rio Braço de Xapuri, pilotando um modesto VW Gol.

Insinuou-se no Acre que a notícia teria sido redigida antes do crime. O jornal alegou ter feito em 1 hora e meia o percurso Rio Branco-Xapuri.

O senador Jorge Viana (PT-AC) lembra que na noite da morte de Chico Mendes levou 3 horas de Rio Branco a Xapuri, em um potente Toyota.

A “façanha” de Julio Fróes foi demolida por Zuenir Ventira, em abril de 1989, na reportagem que você leu acima, e que teve o título de  “Como se criam pistoleiros”, do Jornal do Brasil.

Notícia triste: “Ex-BBB André Cowboy é assassinado no interior de São Paulo”.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

O ex-big brother André Luis Gusmão de Almeida, o Cowboy, de 37 anos, foi assassinado com um tiro na cabeça provavelmente por assaltantes, na madrugada desta quarta-feira, 1º, em Mairinque, região de Sorocaba.

Segundo a Polícia Civil, ele estava num rancho da família quando, por volta das 3 horas, os cães começaram a latir no quintal. Cowboy saiu da casa para verificar do que se tratava, quando foi ouvido um disparo de arma de fogo. Ele foi levado ferido na cabeça para o Hospital Regional de Sorocaba, mas não resistiu.

Almeida tinha 4 filhos e ficou conhecido após participar da 9ª edição reality show em 2009.

Depois do programa, ele ainda fez um filme pornô, “André Cowboy & Suas Cachorras”.

Fonte: Estadão

FAROESTE BRASILEIRO: Testemunha da morte de José Cláudio da Silva foi encontrado morto no Pará.

domingo, 29 de maio de 2011

O agricultor Erenilton Pereira dos Santos, de 25 anos, foi encontrado morto no fim da manhã deste domingo (29), a sete quilômetros do assentamento Praialta/Piranheira, em Nova Ipixuna, no sudeste do Pará, onde na terça-feira foi morto a tiros o casal de extrativistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo (foto ao lado).

A vítima seria testemunha da saída dos pistoleiros em uma motocicleta vermelha que circulava pela estrada de acesso ao assentamento logo depois do crime.

A polícia do Pará já abriu inquérito para apurar a morte – a terceira na área em apenas cinco dias.

Segundo as primeiras informações, Pereira dos Santos teria ido comprar peixe em uma localidade às margens do lago de Tucuruí e teria discutido com alguns homens. Um deles disparou um tiro na cabeça do lavrador, que morreu na hora.

Moradores do assentamento que estavam preocupados com a demora de Pereira dos Santos saíram a sua procura, encontrando o corpo próximo a uma motocicleta que pertencia a ele. Agentes do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e policiais federais que estavam na área chegaram logo em seguida para levar o corpo até a cidade de Marabá, onde seria realizada uma autópsia.

José Batista Afonso, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), disse que o agricultor pode ter sido vítima dos mesmos matadores do casal. O secretário de Segurança Pública, Luiz Fernandes, declarou que a polícia já começou a investigar o novo assassinato na região. “Ainda não temos informações concretas sobre o caso”, resumiu.

NOTA DO BLOG:

Perguntar não ofende: a testemunha estava sob proteção policial?

O ASSASSINATO DA LÍNGUA PORTUGUESA!!!

terça-feira, 24 de maio de 2011

Imagine a seguinte cena: na sala de aula, o adolescente levanta o braço para perguntar à professora se ele pode falar “nós pega o peixe”. Ato contínuo, a mestre pede ao jovem para consultar o livro “Por uma Vida Melhor” e dar uma olhada na página 16. Sedento por conhecimento, o aluno acompanha com olhos curiosos enquanto a docente lê o trecho proposto. O garoto, enfim, sacia a dúvida: sim, ele pode falar “nós pega o peixe”. Está escrito ali, claro como a soma de dois mais dois em uma cartilha de matemática.

Com nuances diferentes, a situação descrita acima provavelmente vai se repetir em milhares de escolas públicas de todo o País. Não é difícil calcular os efeitos nefastos no futuro dos 485 mil estudantes do ensino fundamental que devem receber a obra distribuída pelo Ministério da Educação por meio do Programa Nacional do Livro Didático. De autoria da professora Heloísa Campos e outros dois educadores, “Por uma Vida Melhor” defende a ideia de que erros gramaticais são aceitáveis na língua falada.

Para Heloísa, frases como “os livro ilustrado mais interessante estão emprestado” (tal pérola aparece em destaque no material) não podem ser condenadas se forem expressas verbalmente. Mesmo que em uma sala de aula.

Autora desconhecida, sem grandes feitos na área da educação, Heloísa se viu no centro de uma polêmica que envolveu escritores, linguistas e professores. Por mais que alguma voz aqui e ali tenha defendido os argumentos de Heloísa, além dos eternos demagogos de plantão, a maioria esmagadora condenou seus métodos de ensino.

Uma das mais importantes escritoras brasileiras, Nélida Piñon tem autoridade – como poucos, a propósito – para falar sobre a língua portuguesa. Eis seu veredicto:

“O livro confirma a tese de que esteve sempre em curso no Brasil o projeto de manter uma legião de brasileiros como cidadãos de segunda classe”, diz a autora de “Vozes no Deserto”.

Escritor que conseguiu a rara combinação de fazer sucesso junto ao público e, ao mesmo tempo, conquistar a crítica, Fernando Morais está indignado.

“Esse livro é uma barbaridade”, diz o biógrafo do jornalista Assis Chateaubriand. “Trata-se de um desastre, o oposto do que é pregado por uma pessoa minimamente civilizada.”

Linguista com décadas de serviços prestados à educação brasileira e ex-professor da Unifesp, Francisco da Silva Borba amplia a discussão.

“O aluno tem que ser ensinado”, afirma. “Se ele tolerar infração às regras, então para que serve a escola?”Sob diversos aspectos, “Por uma Vida Melhor” tem potencial para piorar a existência de meio milhão de brasileiros. Se realmente for levado a sério pelas escolas públicas, a obra vai condenar esses jovens a uma escuridão cultural sem precedente. Ao dificultar o aprendizado da norma correta, os professores da ignorância terão criado uma espécie de “apartheid linguístico”, para usar uma expressão do ex-ministro da Educação Cristovam Buarque.

De um lado, os ricos e bem instruídos. De outro, os jovens reféns da falta de conhecimento gramatical. Se é evidente que o livro assassina a língua portuguesa, na medida em que diz que o aluno pode, na fala, escolher usar a concordância ou não, por que diabos ele teve o aval do MEC?

Procurado, Fernando Haddad, o atual ministro da pasta, não quis se pronunciar.

A autora Heloísa Campos pelo menos não se furtou ao dever de defender sua obra. “Falar ‘os livro’ do ponto de vista da linguagem popular não é um erro”, diz a professora. “A nossa abordagem é de acolher a fala que o aluno traz da sua comunidade. A cultura dele é tão válida quanto qualquer outra.”

Fonte: ISTOÉ

NOTA DO BLOG:

A rede GLOBO deveria contratar esse ministro para fazer parte do time dos TRAPALHÕES. Baixa o pano!