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A separação, segundo Affonso Romano de Sant’Anna

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O jornalista e poeta mineiro Affonso Romano de Sant’Anna (foto) descreve no poema “Separação”, tudo quanto acontece quando se desmonta a casa e o amor: sentimentos, momentos, conversas, filhos, vizinhos, perplexidade, futturo, indecisão, etc.

SEPARAÇÃO

Desmontar a casa
e o amor. Despregar
os sentimentos das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas
após a tempestade
das conversas.
O amor não resistiu
às balas, pragas, flores
e corpos de intermeio.

Empilhar livros, quadros,
discos e remorsos.
Esperar o infernal
juizo final do desamor.

Vizinhos se assustam de manhã
ante os destroços junto à porta:
- pareciam se amar tanto!

Houve um tempo:
uma casa de campo,
fotos em Veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.

Amou-se um certo modo de despir-se
de pentear-se.
Amou-se um sorriso e um certo
modo de botar a mesa. Amou-se
um certo modo de amar.

No entanto, o amor bate em retirada
com suas roupas amassadas, tropas de insultos
malas desesperadas, soluços embargados.

Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?

No quarto dos filhos
outra derrota à vista:
bonecos e brinquedos pendem
numa colagem de afetos natimortos.

O amor ruiu e tem pressa de ir embora
envergonhado.

Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?

Tonto, perplexo, sem rumo
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito o coração pesa
mais que uma mala de chumbo.

por Affonso Romano de Sant’Anna

Fonte: Tribuna da Internet

Amor e desamor

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Tempos atrás, citei frase que não era minha e desagradei a alguns leitores que se sentiram insultados porque comparei a máquina de escrever ao cão e o computador ao gato. Evidente que assumi o lugar comum que faz do cão o melhor amigo do homem, enquanto o gato, independente como é, não se dedica ao dono com a mesma fidelidade.

Tem vida própria, como os computadores que são programados por técnicos e não pelos donos, sejam eles competentes ou não.
Uma leitora mandou-me e-mail protestando contra a comparação. Diz ela que tem gatos e que todos são chameguentos, têm ciúmes, são solidários, reagem como seres humanos, dormem com a dona, ficam desolados quando ela sai para trabalhar.

Essa briga de cão e gato é antiga, antecede às máquinas de escrever e aos computadores. De qualquer forma, fico na minha: considero minha velha Remington semiportátil mais fiel do que o computador, que volta e meia, tentando me ajudar, me atrapalha e me deixa na mão.

Mas dou razão à leitora. Conheço gente que adora cães e gatos, dando a cada um o mesmo carinho e deles recebendo a mesma fidelidade, o mesmo amor.

Em casos assim, a comparação entre cães e gatos com os instrumentos mecânicos de escrita claudica como qualquer outra comparação e há vantagem para a máquina de escrever. Minha Remington me acompanha há 50 anos.

Não a uso mais, mas prefiro perder um dedo a me separar dela. Permanece no lugar de honra de meu escritório. Olho para ela e a sinto solidária com os meus fracassos. Ela me acompanha e me dá força. Se precisar dela, será a mesma de antes e me perdoará.

Nos últimos 15 anos, já me descartei de três computadores de mesa e quatro notebooks. Não cheguei a amá-los e não acredito que eles tenham me amado.

Autor: Carlos Heitor Cony